Como pluribus me fez gostar menos de breaking bad e talvez, no futuro, me fará gostar menos do trabalho de Vince Gilligan

Pluribus é a nova série da Apple tv plus encabeçada por Vince Gilligan e enquanto escrevo esse texto tem apenas 4 episódios lançados.

Na série acompanhamos sobre os olhos de Carol (Rhea Seehorn), uma autora de livros infanto juvenis de fantasia, um mundo em que um vírus uniu a mente de todas as pessoas em uma grande rede coletiva metal da humanidade e suas estruturas mudaram, agora todos os recursos da terra são mais bem utilizados acabando com a fome e exterminando conflitos raciais e guerras. As pessoas nessa rede compartilham completamente suas mentes, seus conhecimentos e suas vivências. O que parece ter unido toda a população mundial pode vir de uma empatia profunda pelo próximo, e não por um controle da mente como uma interpretação superficial pode criar, afinal agora as pessoas entendem umas às outras de maneira muito mais pessoal. O contágio todo é feito como um vírus normal e não o que espera-se de “zombies” onde normalmente é feito por atos violentos, na série vemos a primeira contaminação entre humanos por exemplo acontecendo por um beijo, um ato quase sempre visto como carinho e afeto.

Em um dos episódios, Carol pede para encontrar pessoalmente outras pessoas que não foram incorporadas por essa mente compartilhada e que sabem falar inglês, das 4 pessoas que ela encontra 3 são de países Asiáticos, um homem do Japão, uma senhora da China e uma mulher da Índia. A série parece sugerir que sociedades com maior tradição comunitária poderiam não ter problema em unir-se à mente humana global.

Em outro momento, vemos uma sequência em que Carol diz ser independente e que sempre fez as coisas sozinha até encontrar um supermercado vazio, pois a coletividade julgou que faria mais sentido tirar os recursos por questão logística e fazer com que chegassem onde realmente eram necessários. O mercado então é reabastecido completamente a pedido de Carol e o que vemos em seguida é uma pequena amostra de como o trabalho é escondido por um sistema maior, onde não conseguimos enxergar todo o trabalho logístico para que coisas assim funcionem e tornem Carol “independente”.

Neste contexto inteiro Carol parece apenas uma pessoal muito egoísta, em que sua individualidade destaca-se como muito mais importante que o bem coletivo, não compreendendo ou pelo menos sem tentar entender as melhorias que foram feitas às pessoas normalmente marginalizadas. E essa parece ser a grande pergunta da série, pelo menos sobre o meu olhar. 

Essa liberdade individual que nem de longe é igual para todos é mais importe que um bem coletivo? O que sinceramente observando os trabalhos anteriores de Gilligan, sinto que pode cair em uma discussão simplória de que a liberdade individual americana é superior a qualquer outra coisa. Assim, depois de muito refletir quando revisito Breaking Bad (que é ainda muito divertida) não deixo de sentir que fica em uma crítica que parece profunda, mas não passa da superficialidade de algo maior. Se hoje muito debate-se sobre como provavelmente breaking bad não aconteceria em países com sistemas de saúde pública gratuita como no Brasil ou países da Europa, na série torna-se apenas um obstáculo para que Walter White consiga transpor, no mesmo país que gasta o dinheiro do contribuinte para desestabilizar democracias e patrocinar matanças. É o mesmo universo em que podemos compreender e em alguns casos até criar empatia com os atos mais crueis de White, não conseguimos fazer o mesmo com os membros dos carteis por exemplo, que são sempre retratados de maneira animalesca e sem qualquer questionamento. Better Call Saul, quando observado sobre essas lentes, consegue ser muito mais profundo, mostrando mais perspectivas e camandas de personagens como Nacho Vargas, Mike e Lalo Salamanca. Talvez não porque Gilligan tenha evoluído, mas porque pode pisar no freio e ter mais tempo para desenvolvê-los.

Se tivesse que escolher um final para pluribus, escreveria um final semelhante ao do livro Eu sou a lenda. No livro todas as pessoas viraram vampiros e acompanhamos o último humano restante na terra tentando curar os demais. Quando o protagonista do livro é capturado descobrimos que a humanidade em sua estrutura acabou, vivemos agora em nova sociedade. Nosso protagonista já está ultrapassado e ele era um tipo de monstro que matava membros daquela nova sociedade. Mas se Hollywood sequer cogitou adaptar algo de uma fonte tão direto de uma fonte, poderia fazê-lo em pluribus?

Se Vince Gilligan conseguirá navegar em mares mais profundos eu ainda não sei, mas com toda certeza pluribus me faz revisitar suas obras com olhares diferentes.

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